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O general-esfinge | Montedo.com.br

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Edson Leal Pujol, o general-esfinge

Um boletim reservado do Exército, de janeiro de 1978, registra a primeira promoção nas carreiras militares dos jovens Jair Messias Bolsonaro, de 22 anos, e Edson Leal Pujol, de 23. Recém-saídos da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), os dois deixavam de ser aspirantes e viravam segundos-tenentes. Bolsonaro escolheu a Artilharia como arma. Foi o 19º da turma. Pujol foi para a Cavalaria. Ocupou o primeiro lugar. No boletim de 1979, consta que eles viraram primeiros-tenentes — um no meio, e o outro no topo da lista de colocações. No ano de 1983, capitães, a dinâmica se repete. Bolsonaro em colocação mediana, e Pujol no topo. Mas a linha que os unia na caserna se interrompeu aí. Vieram a se cruzar novamente só meses antes das eleições de 2018, quando Pujol, então chefe de Ciência e Tecnologia do Exército, passou a aconselhar discretamente o candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Por sorte ou azar, as credenciais do general (Pujol era o quatro estrelas mais antigo da ativa) acrescidas da proximidade com o novo inquilino do Palácio do Planalto o catapultaram ao posto de comandante do Exército do primeiro governo composto essencialmente de militares desde o fim da ditadura. Passados um ano e meio dessa experiência, Pujol equilibra-se com alguma dificuldade no comando de uma força de 222 mil homens armados que Bolsonaro demonstra acreditar estarem mais a serviço de seu governo do que do país.
Um jeito “pitoresco”. Era assim que Pujol classificava o linguajar e os radicalismos manifestados por Bolsonaro no período da campanha, e o aconselhava a agir de forma diferente. Essa conhecida incompatibilidade comportamental com os ritos da caserna sempre esteve presente nas fichas anotadas pelos instrutores do presidente quando ele frequentou os bancos da formação militar. Na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), enquanto Pujol era o estudante mais destacado da turma, as fichas de Bolsonaro mostravam que ele precisava de “reorientação da carreira”, além de receber um “regular” em “espírito militar”. Uma barrinha de metal afixada à farda, com coroas representando cada vez que ele concluiu uma formação em primeiro lugar, lembra aos colegas que Pujol é um “tricoroado” — status incomum e caro num universo movido a signos, símbolos, hierarquia e desejo de superioridade. Embora colecione todos esses feitos, o general é hoje subordinado a Bolsonaro, comandante supremo das Forças Armadas, segundo a Constituição Federal.
Os caminhos coincidentes de ambos, contudo, não garantiram uma convivência pacífica, que se converteu em conflituosa conforme as tendências autoritárias de Bolsonaro se aprofundaram no decorrer da pandemia. O presidente incitou a população a ir às ruas e compareceu a manifestações que pediam o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso, além de uma intervenção militar. Em algumas, convocou a presença do próprio ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo e Silva, criando indisposição ímpar com a ala militar. Uma dessas manifestações ocorreu em frente ao quartel-general do Exército, em Brasília, onde Pujol despacha. Nesse dia, um domingo, 19 de abril, Bolsonaro discursou em meio a dezenas de pessoas, sem respeitar medidas de distanciamento social. Foram momentos de pressão extrema para Pujol, já que uma parcela significativa dos generais da reserva, que não mandam nada, mas influenciam indiretamente o pensamento das tropas, por meio de grupos de WhatsApp e redes sociais, se colocou a favor do comportamento do presidente. Na via contrária está uma parte do alto-comando, formado por generais da ativa que comandam tropas numerosas. Os que estão alinhados a Pujol rechaçam a atitude de Bolsonaro de envolver o Exército em seus embates políticos, ainda que concordem com a avaliação de que o STF tem extrapolado suas funções, avançando sobre o Executivo.
Enquanto o presidente usava pronunciamentos oficiais na TV para atacar governadores e diminuir a importância da pandemia, Pujol fez um vídeo conclamando o Exército àquela que seria provavelmente a “maior batalha” de sua geração, o combate ao novo coronavírus. Em 30 de abril, Bolsonaro viajou para Porto Alegre para participar da cerimônia de troca da liderança do Comando Militar do Sul, já chefiado por Pujol entre 2017 e 2018. Estendeu a mão para cumprimentar o comandante do Exército como se não houvesse pandemia, mas recebeu de volta o cotovelo, como mandam os protocolos de saúde. Pelo princípio da hierarquia, os demais generais seguiram o comandante, oferecendo o cotovelo ao presidente — o que o deixou visivelmente irritado.
Depois desse episódio, emissários do Planalto fizeram chegar ao comandante que ele poderia ser substituído antes do término de sua gestão. Bolsonaro queria alguém mais alinhado a seu governo no posto, insinuando que esse nome poderia ser o do ministro da Secretaria de Governo da Presidência, o general Luiz Ramos. Até ingressar no Executivo, Ramos era comandante militar do Sudeste. Substituir um comandante no exercício do cargo é uma medida incomum e inédita. Desde o governo Lula, há uma regra implícita na sucessão das Forças Armadas: é alçado ao posto o oficial que cumpra os critérios de maior tempo de generalato e mais alta patente. Romper essa tradição por razões de afinidade seria um golpe no princípio de hierarquia que norteia as Forças. Tal possibilidade fez o alto-comando enviar uma mensagem dura ao Planalto, também via interlocutores: de que não aceitaria uma troca tão atípica. Ainda distante da proteção do centrão e em guerra com o Legislativo e o Judiciário, Bolsonaro decidiu ceder, evitando assim um confronto institucional com as Forças Armadas. Ramos, ainda na ativa, resolveu pedir para ir para a reserva.
Desde o início do governo, Pujol guarda certo temor de que seu currículo alentado e sua postura menos exuberante que a de Bolsonaro semeiem uma espécie de rivalidade com o presidente, que já demitiu auxiliares por se sentir incomodado com seus êxitos ou por avaliar que eles não o defendiam a contento. Pujol é descrito por companheiros de farda e de patente como “legalista”, o que não daria margem, por exemplo, à interpretação bolsonarista do artigo 142 da Constituição, que, segundo uma leitura equivocada, permitiria que as Forças Armadas fossem acionadas para intervir em favor de um Poder, em casos de conflitos entre Poderes.

“Um jeito ‘pitoresco’. Era assim que Pujol classificava o linguajar e os radicalismos manifestados por Bolsonaro no período da campanha, e o aconselhava a agir de forma diferente”

A chegada de Pujol ao comando do Exército representou uma mudança radical de estilo, se comparado ao de seu antecessor no cargo, general Eduardo Villas Bôas. O atual comandante não gosta de política e concentra atribuições dessa área em seu chefe de gabinete. Não tem perfis em redes sociais, não dá entrevistas à imprensa e não externa opiniões sobre o atual momento político. Pujol tampouco tem proximidade com os generais do Palácio do Planalto — grupo que Villas Bôas integrava até ir para casa, em razão do agravamento de sua doença, a esclerose lateral amiotrófica (ELA). A exceção é Walter Braga Netto, que, antes de ocupar o cargo de ministro da Casa Civil, foi chefe do Estado-Maior do Exército na gestão de Pujol. O comandante raramente tem uma comunicação direta com Bolsonaro, deixando os interesses políticos da caserna nas mãos do ministro da Defesa, de quem também é bastante próximo.
Já o vice-presidente, Hamilton Mourão, e Pujol se encontram com frequência. Mantêm uma relação de amizade desde meados de 1995, quando integraram a mesma turma do Centro de Instrução de Guerra na Selva. Mourão era tenente-coronel, e Pujol major. Hoje, ambos têm o hábito de ir ao Regimento de Cavalaria de Guardas (RCG), em Brasília, para praticar equitação. Pujol aparece no RCG praticamente todos os dias, antes das 7 horas da manhã. Mourão costuma ir três vezes por semana. Encontram-se para conversar sempre no cafezinho, momentos antes de montarem seus cavalos, ainda que a pandemia tenha abreviado essas reuniões.

A fatídica cotovelada em forma de cumprimento, em abril deste ano, que fez Jair Bolsonaro considerar a troca de Pujol. Isso seria inédito na história recente do Exército. Foto: Marcos Corrêa / PR

A discrição desses encontros está em linha com o estilo de Pujol ao longo de toda a sua carreira no Exército. Ele tem por princípio respeitar regras e moderar sua fala em momentos sensíveis, optando pela neutralidade. Militares que já presenciaram reuniões do alto-comando relataram a ÉPOCA que, mesmo em anos de intensa crise política no país, entre 2014 e 2018, o general era um dos mais calados durante os encontros. Já publicamente, quando as condições políticas se tornaram mais favoráveis à exposição de suas opiniões, como no período de ascensão de Bolsonaro, ele se arriscou.
Em um evento em Porto Alegre, em 2017, já promovido a quatro estrelas e a Comandante Militar do Sul, Pujol disse que não estava satisfeito com a política e que o povo tinha de ir às ruas para mudar. “Se nossos representantes não estão correspondendo às nossas expectativas, vamos mudar.” Também criticou a educação pública. “Se vocês pegarem o material didático das escolas… Olha, não vou classificar aqui. Mas vocês concordam com o que está sendo ensinado aos seus netos, sobrinhos? Vocês foram à escola, à Secretaria de Educação, ao Ministério da Educação?” Em outro trecho de seu discurso, afirmou que a imprensa e a educação atual não representavam o “cidadão de bem”. “Esse grupo de pessoas que são a maioria ou talvez a que domina a imprensa, a educação, não são a maioria da população, mas são os mais organizados, os mais atuantes e os mais persistentes e não vão abandonar os objetivos deles, mesmo que sejam para ganhos pessoais. E que se nós, cidadãos de bem, não fizermos a nossa parte, não nos opusermos a esse estado de coisas, não vamos mudar.” Nessa fala, contudo, Pujol fez uma ressalva que o distanciou de seu antecessor no cargo, o general Mourão: os protestos contra a política deveriam ser “ordeiros”, e não cabia uma intervenção militar. No mesmo mês, também em evento na capital gaúcha, Mourão havia pregado a segunda opção.
Dois anos antes, Pujol se sentia menos estimulado a bradar suas convicções em público. Era secretário executivo do gabinete militar da Presidência da República no governo de Dilma Rousseff e pela petista foi designado a ganhar sua quarta estrela e assumir o Comando Militar do Sul, que congrega as tropas mais numerosas entre todos os comandos do país. Em 2011, também sob Dilma, assumiu o comando do Centro de Inteligência do Exército e, em seguida, foi enviado ao Haiti para chefiar as tropas da missão da ONU.
Seu comportamento adaptável a múltiplos climas o ajudou, por exemplo, a não se chamuscar no período das discussões que garantiram uma branda reforma da Previdência aos militares. Mesmo avesso à política de gabinete, ele teve papel decisivo nos bastidores das articulações. As carreiras nas Forças Armadas foram reestruturadas, inclusive com aumento salarial à tropa, mas o desgaste desse aumento de privilégio recaiu principalmente sobre o ministro da Defesa.
Ainda que Pujol tenha buscado se distanciar do bolsonarismo, ele procura não comprar brigas com o governo. Na origem, há um alinhamento intangível de ideias, que remonta à formação militar e sobrevive às intempéries protagonizadas pelo presidente. Pujol não se opôs à produção de 1,8 milhão de comprimidos de hidroxicloroquina pelo Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército e autorizou que esses medicamentos fossem distribuídos pelas tropas até mesmo a tribos indígenas da fronteira com a Colômbia e a Venezuela, sem que houvesse comprovação científica de sua eficácia contra o novo coronavírus.
Na gestão de Pujol, em janeiro deste ano, três portarias estabeleceram novas regras para rastreabilidade de armas e munições, para auxiliar na função de fiscalização de armamentos que cabe ao Exército. Em abril, Bolsonaro ordenou que as portarias fossem anuladas e o limite de munições a serem adquiridas por civis subisse de 200 unidades ao ano para 550 ao mês. Essa mudança foi conduzida pelo Ministério da Defesa, sem o protagonismo do Exército. Quando Bolsonaro externou seu desejo de “armar o povo” na reunião ministerial de 22 de abril, a portaria ampliando os limites já estava pronta para ser assinada pelos então ministros Fernando Azevedo e Silva e Sergio Moro, da Defesa e da Justiça, que o fizeram às 16 horas daquele mesmo dia.
As convicções de Pujol sobre o desmatamento na Amazônia tampouco diferem do que pensam Bolsonaro e, por tabela, os militares. Quando serviu na região, em meados de 1990, ele nutria um pensamento antiambientalista. Segundo relatos de quem serviu com ele, o hoje general acreditava que o principal desafio não era o desmatamento, a atuação ilegal de garimpeiros ou o descaso com a população indígena, e sim a presença de organizações não governamentais (ONGs) internacionais no território. Como a maioria dos militares, acreditava na tese conspiratória de que as ONGs eram agentes disfarçados para privilegiar interesses externos em recursos minerais e no patrimônio genético da biodiversidade. Em 2019, quando as queimadas na Amazônia se tornaram alvo de comoção mundial, atraindo críticas de líderes de vários países, Pujol deu uma declaração endereçada ao presidente da França, Emmanuel Macron, nos seguintes termos: “Aos incautos que insistem em tutelar os desígnios da brasileira Amazônia, não se enganem”.
Mais recentemente, quando o ministro do STF Gilmar Mendes disse em um debate que o Exército estaria se associando a um “genocídio” em razão das políticas de saúde implementadas por militares, as Forças Armadas estrilaram. Semanas antes, em meio ao chumbo trocado entre Executivo e STF, Pujol havia recebido Mendes num sinal de cordialidade. O ministro queria desfazer a avaliação presente entre os militares de que a Corte estava avançando sobre as funções do Executivo. Por isso, diante da fala mais recente de Mendes, Pujol foi o que mais se indignou, contaram interlocutores. Mas a fúria teve vida breve. Mesmo ofendidos, os militares sabem que o governo não tem qualquer interesse em se indispor com o magistrado enquanto estiver em suas mãos o poder de decidir qual tribunal conduzirá o caso de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), o filho zero um do presidente.
Pujol é filho e neto de policiais militares do Rio Grande do Sul, estado onde nasceu e viveu até ingressar na Escola Preparatória de Cadetes, em 1971, em Campinas. Um de seus filhos, o capitão Leonardo Moreira Pujol, também é PM e integra os quadros de segurança da Bahia. Leonardo foi comandante do Batalhão de Choque em Lauro de Freitas, a 30 minutos de Salvador. Desde abril de 2019, foi cedido para a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), vinculada ao Ministério da Justiça. A Senasp era então chefiada pelo general Guilherme Theophilo, amigo de seu pai desde os tempos da Aman e que pediu exoneração após a saída de Sergio Moro da pasta. Em razão dessa nova função, Leonardo já recebeu R$ 102.400 em diárias nos últimos 15 meses, valor que o Ministério da Justiça considera dentro da lei.
O segundo filho do comandante do Exército, Diego Moreira Pujol, é médico veterinário especializado em anestesia e acabou de ser selecionado para ser oficial de saúde na Força. Antes disso, em abril, Diego recebeu uma parcela de R$ 600 do auxílio emergencial destinado pelo governo federal a trabalhadores informais que ficaram sem renda em razão da pandemia do novo coronavírus. Têm direito ao auxílio trabalhadores de famílias em que a renda mensal por pessoa não ultrapasse meio salário mínimo. Nas Forças Armadas, 73 mil militares receberam o benefício indevidamente e precisaram devolver o dinheiro. Procurado por ÉPOCA, Diego afirmou que o pagamento foi indevido. “Eu era microempreendedor individual, e pode ter caído automaticamente. Não pedi o auxílio. Pode ter ocorrido também fraude ou uso indevido do meu CPF. Já houve a devolução dos R$ 600”, disse. Pujol é pai ainda de Marcelle, que compartilha em suas redes sociais mensagens contra o ódio, a discriminação de imigrantes e a favor da igualdade de direitos para as mulheres. Ela é formada em relações internacionais.
“Pujol deu aval à produção de 1,8 milhão de comprimidos de hidroxicloroquina pelo Exército e autorizou que o medicamento fosse distribuído até mesmo a tribos indígenas, sem que houvesse comprovação científica de sua eficácia”
ÉPOCA pediu uma entrevista a Pujol e enviou algumas perguntas, que foram respondidas em um texto único enviado por meio do Centro de Comunicação Social do Exército. Nele, o general afirma que entende liderar “uma instituição de Estado, e não um órgão de governo”, e que tem direcionado “suas ações e sua atenção para os assuntos da Força, uma vez que aspectos políticos da área de Defesa devem ser tratados pelo respectivo ministro da pasta”. O general disse ainda que busca “diálogo frequente e harmonioso com ampla rede de órgãos e agências e com autoridades e representantes dos três Poderes da República”.
Questionado sobre o silêncio do Exército em relação à atuação de militares na condução da pandemia que já matou mais de 82 mil brasileiros, sobre seu aval para a nomeação do general da ativa Eduardo Pazuello ao Ministério da Saúde e sobre a política de produção e distribuição de cloroquina, o comandante afirmou que não é função do Exército interpretar leis nem “julgar o mérito” das políticas empreendidas pelo Executivo. “Cabe ao Exército cumprir sua missão constitucional e as ações subsidiárias que lhe são solicitadas, em estrita observância da legislação em vigor no país.”
Sobre a atuação dos filhos na esfera pública, o comandante afirmou que eles “são cidadãos responsáveis pelos seus atos e que as questões suscitadas não estão afetas à instituição Exército Brasileiro”. Por fim, Pujol considerou que foi nomeado por Bolsonaro para o cargo de comandante do Exército em razão de uma “longa carreira de quase cinco décadas, consolidada pela reputação de profissionalismo”. E também por “traços de personalidade”. Entre esses traços, citou, está a discrição.
ÉPOCA/montedo.com



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